Ensaios sobre a cegueira
Publicado em 09.03.2009 por CHRistian na(s) categoria(s) Colaboradores, Estratégias, Opinião
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Quero começar pedindo licença a Saramago por utilizar não apenas o título de uma de suas obras, mas acima de tudo utilizar seu pensamento.
A cegueira por nós conhecida é algo físico, porém no livro de Saramago, bem como no filme fica claro que em muitos momentos agimos como cegos, uma cegueira que é do intelecto, algo que não apenas não vemos, não compreendemos, mas acima de tudo significa que não estamos prontos para a realidade iminente.
Conheço muita gente neste mercado, de traders profissionais até curiosos pelo mesmo, mantenho contato com todos, busco aprender e ensinar e de todo o amplo universo de mentes que operam neste mercado vejo uma profunda e negra nuvem que escurece os olhos e aflora os mais desesperados sentimentos.
Vejo a linearidade com que estratégias são desmanchadas e objetivos são esquecidos. E tudo isso ocorre porque os investidores são incapazes de agir com calma, buscar conhecimento e reflexão, buscar um feixe de luz no escuro.
O mercado não é algo tão simples como todo mundo tende a transformá-lo, porém fazemos parte dele querendo ou não, investindo ou não. Podemos fazer parte dele uma vez que como consumidores estamos à mercê de seus preços, mesmo sem investir em petróleo, café ou ouro, todos andamos de carro, tomamos café e usamos alianças ou outros objetos de ouro. Todos estes produtores tiveram seus preços determinados neste grande e global mercado do qual vivemos. É cego aquele que supõe não fazer parte do mercado simplesmente porque não é um investidor.
Mas e nós investidores, seríamos grandes sábios que vivem apenas na luz? Não vejo dessa forma, apesar de observar que muitos pensam assim. Na bolsa como em qualquer outro investimento é necessário saber três coisas: o que queremos extrair dele, como extrair e o quanto extrair.
Esses três fatores, ainda que não pareça, servem para qualquer investidor, qualquer perfil. Um especulador sabe muito bem essas três coisas, o objetivo é claro, a forma de se atingir ele idem e o quanto você quer retirar é tão fundamental que antecede toda a operação. Na realidade o quanto queremos extrair do mercado é o fator que todo ser humano pensa em primeiro lugar.
O investidor mais conservador, e sinceramente o que mais me preocupo neste momento, também leva ou deveria levar em conta estes três pontos. Para muitos deles o que eles querem extrair é uma aposentadoria, querem fazer isso correndo o menor risco possível e o quanto desejam extrair do mercado depende do estilo de vida que querem ter no futuro.
A cegueira começa a partir do momento que qualquer uma dessas variáveis apresente-se de forma distorcida. A maior parte não está pronta para o caos, não está pronta para o movimento que todo esse mercado global é capaz de proporcionar.
É incrível ver que tanta gente se desespere quando a bolsa varia pra baixo, investimos em renda variável, ela vai variar, é fundamental que varie, pois apenas assim podemos obter lucro. A mais de um século os mercados são assim… Problemas aparecem, resolvem-se e o mercado continua. Morrem empresas que precisam morrer, continua o que consegue continuar… Nascem novas empresas que irão produzir o futuro necessário.
Conheço muitos investidores que dizem assim: “invisto em Vale porque é uma grande empresa e jamais vai quebrar, vou investir nela até me aposentar e irei me aposentar milionário.” É estranho então observar que em menos de 2 ou 3 meses de crise todos tenham vendido, o mundo acabou, a Vale quebrou, quero me aposentar pobre.
A Vale está no mundo há mais tempo que grande parte de seus investidores, bem como a Petrobras. O que diríamos então de empresas como GE e Johnson&Johnson nos EUA, passaram por duas guerras mundiais e todas outras que os Estados Unidos conseguiu fazer, passaram por crises, depressões, má administração… E estão vivas há mais tempo que qualquer ser humano deste planeta.
Se você não agüenta uma oscilação de 10, 20, 30% e prefere sair do mercado e voltar quando tudo estiver mais calmo, você não é um investidor de LP, você é um investidor de MP. Ajam dentro daquilo que realmente são, busquem o auto-conhecimento, conversem em família, conversem com assessores e sigam em frente. Não sejam cegos em um tiroteio. É fundamental saber quem você é, só assim você saberá até onde pode ir, a pior coisa que você pode fazer é descobrir isso no meio da batalha, ou pior achar que tudo o que você idealizou estava errado. O mercado vai testá-los constantemente, estejam prontos para ele.
Em momentos de crise como esse, quando a visão fica completamente escura, é hora de aguçar os ouvidos, o tato, sentir o aroma do ar e tomar decisões coerentes. Sejam inteligentes e acendam uma vela, produzam sua própria luz. Jamais se desesperem, a única coisa que você não vai conseguir fazer quando estiver cego é enxergar.
Artigo escrito por Rafael Valim.
Rafael Valim, geógrafo e trader, opera no mercado financeiro e colabora eventualmente com o CHR Investor.
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9 de março de 2009 às 19:42
Os questionamentos do Rafael apontam invevitavelmente para o limiar entre Psicologia e Economia. Muito do sucesso do investidor depende do seu estado mental interno, uma vez que no processo de tomada de decisões, as emoções impulsionam as escolhas. Novas áreas estudam isso, como a Psicologia Econômica, a Economia Comportamental, a Economia Psíquica e a Neuroeconomia.
10 de março de 2009 às 13:22
Parabéns pelo artigo! Ele nos leva a grandes reflexões sobre o que queremos alcançar na nossa vida e o que estamos fazendo para que isso aconteça.
13 de março de 2009 às 16:15
Olá Rafael. Já conheço seus artigos e sei de seu potencial que cada vez mais demonstra conhecimento profundo sobre os dogmas do mercado.
Quando li o Título já percebi que o texto diria muita coisa sobre o mercado.
Assisti o filme e gostei muito. Uma reflexão muito interessante da cegueira da sociedade diante de suas mazelas.
Quanto ao mercado a cegueira está em não reconhecer que o mercado é “variável”, como você disse no artigo. Isto é, temos que ter a sensibilidade para agir diante de altas e baixas, e, acima de tudo, para nós investidores novatos e conservadores, pensar no longo prazo.
Parabéns Rafael, continue nos presenteando com sua percepção aguçada do mercado.
6 de abril de 2009 às 17:00
[...] presente texto pretendo continuar as observações e a mesma análise de meu último artigo. Mas buscando dessa vez observar certos aspectos no que se refere a alavancagens [...]